Maria Fumaça

Por que um país com as dimensões do Brasil, que está entre os maiores produtores de aço do mundo e tem notável potencial energético depende tanto do transporte rodoviário e tem o combustível a preços tão elevados?

A resposta parece ser a escolha política feita, há décadas, e que se transmite de governo para governo, por um padrão de gestão focado em resultados rápidos e pouco comprometido com algo além do mandato, que segue a cartilha ditada por especuladores.

A Rede Ferroviária Federal, a RFFSA criada nos anos 50 por JK e cantada por Kleiton e Kledir, foi privatizada no governo FHC, o mesmo governo que privatizou a Vale do Rio Doce e que deu início ao processo de privatização da Petrobras, levado adiante sem pena pelos governos do PT, num processo entreguista acelerado por Temer até o grito que ecoa das falas do atual presidente da Petrobras, Pedro Parente: o petróleo não é nosso!

Vale lembrar, por lealdade a escrita, que nenhum governo ouviu o clamor dos petroleiros, e nem dos metalúrgicos, e que coube aos Tribunais referendar, por multas, os atos de repressão aos grevistas que em 1995 e em 1996 tinham como principal pauta os atos contra a privatização da Petrobras e da Vale do Rio Doce.

Tampouco os ferroviários foram ouvidos quando do desmonte das ferrovias.

O intrigante nisso tudo é a aprovação da Lei de Concessão em Transporte, em 2017, originária de uma Medida Provisória de Temer, a sugerir investimentos públicos no que já foi rifado das ferrovias.

Com o cenário do caos anunciado, não será difícil aprovar o que for agora que a greve dos caminhoneiros parou o Brasil.

Sem dúvidas o Brasil precisa voltar para os trilhos. Seja no transporte de mercadorias, ou de passageiros, nos longos percursos ou nos circuitos urbanos, o transporte ferroviário é uma necessidade premente.

A questão é como se fará esse processo. E nisso temos que ter redobrada atenção, para não cair na conversa fiada de governantes que em vez de promover o desenvolvimento do país, enchem os bolsos dos investidores de capital volátil a custa de gerações que estão a pagar essa conta, a conta de uma democracia vacilante que titubeia em sua soberania e olha para os interesses do mercado ao invés de olhar para sua própria história.

É este abandono da história que faz com que se ouça o vergonhoso pedido de intervenção militar, bradado por quem não tem memória, em meio a uma miscelânea de bandeiras que se confundem entre as legítimas pautas dos caminhoneiros e os interesses não menos legítimos dos empresários do ramo, pois não serei eu a dizer que tem alguém aqui mais errado do que quem põe o Exército na rua para aplacar reivindicações justas.

Lisboa, 26 de maio de 2018.

Ângela Konrath

6 respostas para “Maria Fumaça”

  1. Texto muito verdadeiro e elucidador!!! Meu apoio total aos caminhoneiros, que transportam de norte a sul a nação em seus volantes sempre ouvindo sua música raiz e carregando nossos sonhos, mas não esqueçam que militarismo, é contra greve!!!!

  2. Oi Angela! Perfeito a tua explanação
    sobre todo o processo!!para quem
    acreditava, que só um governo é
    culpado de tudo. Pode constatar
    que essa política podre, já iniciou
    a muitos anos! Bj grande e um forte
    abraço !!

  3. Querida só você para fazer uma síntese tão perfeita da situação do nosso país . Amo você querida, nem sei se lhe digo para voltar logo. hehehehehe Beijos.

  4. Perfeito. As razoes fazem um TCC de tão ajustada a matéria em relação ao caso das ferrovias. Acredito que o governo irá refletir bastante, pois e’ uma incontroversa posição investir no transportes rodoviário mantendo-se esta política de preço dos combustíveis.

  5. Incrível verdade de nossa situaćao,anos e anos de atos e fatos que nunca resultaram em melhoria para a naçao.
    A unica atitu que poderemos ter, na minha opniao é ,nos juntar aos caminhoneiros mesmo que custe nossa alimentaćao e direitos ja tao absolutamente precarios ou inesistentes .

  6. Infelizmente minha amiga, as obras públicas parecem ser decididas conform interesses oitros que não o do bem comum… mas sem provas, nem poderia deixar esse comentário aqui… pois se retornarmos à ditadura declarada (no lugar da atual velada) terei problemas com as liberdades que ainda me restam como pessoa de classe média…

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