PAI

Se eu não conseguia respirar à noite, chamava por ele
A garganta doía, lá estava meu pai!
Bonecas novas para deixar a casa da avó
Sandálias de tirinhas sob os protestos de minha mãe
Cacunda quando eu cansava
Colo no fundo do mar
Passeio de lambreta com toda a família na garupa
Galinha com farofa em Gramado e piquenique no Zoológico
Pedalinho na Redenção
Números e números do concurso “A mais bela prenda”
(que eu nunca ganhei!)
Rifa do ovo de chocolate gigante
Assobio para sair da rua
(ou o chinelo corria …)
Buscas desesperadas nas minhas fugas
Fantasia no carnaval
Torcida na gincana e muitos aplausos no balé
(e pouco importava que minhas poses e passos fossem no sentido oposto do grupo)
Bola de vôlei
Triciclo e depois Monark
Máquina de escrever Olivetti
Óculos de gatinha aos doze anos
(e eu podia esquecer o biquíni de lacinhos que ganhei de minha madrinha)
Veio o toca-discos Philips, com LP amarelo do Patrick Hernandes que foi a sensação do bairro
Um quarto só para mim
Minha primeira calça LEE
Namoro só depois dos quinze anos, com direito a sofá novo na sala
Gargantilha com meu nome
Valsa
Espera na parada a volta da aula noturna
Brigas na adolescência
(e nada de más companhias)
Paredes furadas nas mudanças
Vale-transporte no desemprego
Orgulho na formatura
Caixinha de música com bailarina e tudo
Forma de bolo com furo no meio
Espelho no casamento
Enfarte no divórcio
Churrasco garantido aos domingos
Conversa, conversa e mais conversa
Natal em casa e ano novo sem pai
Saudade sem medida
E eu só encontrei ele aos meus oito meses de vida …

Floripa, inverno de 2002

 

Meu avô, eu e meu pai nos meu 15 anos

3 respostas para “PAI”

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